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Jiu-jitsu feminino: as mulheres muito além do tatame

Jiu-jitsu feminino: as mulheres muito além do tatame

O Jiu-jitsu é uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal. Entre os nomes de maior destaque hoje nas Artes Marciais Mistas do mundo, temos duas brasileiras Amanda Nunes e Chris Cyborg, mas acreditamos que os benefícios da prática do Jiu-jitsu para as mulheres vão muito além do tatame.

Nós da Gracie Barra Freguesia do Ó, em São Paulo, conversamos com a Doutora Tatiane Gaipo Kuntz, Psicóloga Clínica em SP e que também é praticante da arte suave para falar um pouco sobre os benefícios do Jiu-jitsu para as mulheres.

Segue o bate papo que tivemos e esperamos que você saiba um pouco mais sobre os benefícios da arte suave.

Gracie Barra Freguesia do Ó: Temos visto muitas mulheres buscando a prática de Jiu-jitsu e muitas delas se destacando nos grandes eventos de MMA, como o UFC. Tem alguma razão específica para as mulheres estarem buscando praticar mais as artes marciais?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: Olha, eu não tenho nenhum dado estatístico e nenhuma análise destes dados, mas fico pensando se aumentou de fato, ou se com essa história toda do empoderamento feminino e da luta das mulheres por mais espaço de igualdade perante as leis, reconhecimento profissional, etc… a mídia tem demonstrado maior interesse e noticiado mais sobre a atividade feminina nos esportes em geral; ou ambas as coisas. Mas é um fato, que hoje se ouve muito mais e se vê noticiado sobre mulheres no universo das lutas, principalmente jiu jitsu e mma. Seria necessário uma pesquisa séria e mais afundo para descobrirmos melhor os porquês.

Gracie Barra Freguesia do Ó: Acompanhamos com alarme os números da violência contra a mulher. Qual a importância do Jiu-jitsu como ferramenta de combate à violência física e psicológica contra as mulheres?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: Acredito que no que se refere ao aspecto da violência física; pelo fato de as artes marciais e principalmente o Jiu jitsu, terem especificamente técnicas muito precisas para a autodefesa, ao trabalhar essa capacidade de se defender de alguém não importando a diferença de tamanho, peso ou sexo, habilita e encoraja a pessoa a se defender tecnicamente e evitar de fato uma agressão física.

E no que se refere a violência psicológica, é que além de auxiliar na capacitação para a própria autodefesa em si, acaba indiretamente auxiliando também como reforço da autoestima; uma vez que a pessoa se sente mais fortalecida e autoconfiante de que não será agredida porque sabe se defender caso precise, ela provavelmente alterará também a sua postura diante do outro e isso aumenta as chances de que não se colocará nem se posicionará (porque não estará se sentindo) como vítima diante de uma figura mais opressora ou agressiva. Isso não serve apenas para mulheres, mas para qualquer pessoa, principalmente alguém que já tenha vivenciado alguma situação de extrema fragilidade ou que tenha sido de fato vítima de algum tipo de opressão ou agressão.

Qualquer ocasião em que alguém tenha sido subjugado e exposto a uma situação de violência psicológica ou física, pode deixar marcas emocionais profundas e acredito que o jiu-jitsu, principalmente por se uma arte marcial em que se realizam lutas reais durante todos os treinos , nas quais se é possível aplicar e treinar de fato as técnicas; possa Auxiliar muito como coadjuvante no trabalho de retirar a pessoa do lugar de vítima real ou possível e a coloca-la num lugar segurança para que recupere ou desenvolva melhor a sua autoconfiança e autonomia de que é capaz de se fortalecer e se defender sozinha se for preciso ou se não houver outra opção.

treino feminino

Gracie Barra Freguesia do Ó: Autoconhecimento, controle emocional, resiliência e superação. entre tantas outras palavras e expressões essas são algumas que vem a mente como características desevolvidas por praticantes de Jiu-jitsu. Existe algum diferencial para as necessidades e características desenvolvidas pelas mulheres em relação ao universo masculino?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: Acredito que além desses ganhos que você citou, e os que comentamos na questão anterior no que se refere a autoconfiança e autonomia, que na verdade são unânimes, são ganhos comuns à todas as pessoas; ao pensarmos no caso da mulher, é um esporte que inigualavelmente ocasiona uma “igualdade justa” de habilidades entre o mundo feminino e masculino; porque a mulher não busca e nem precisa ser mais forte que um homem para poder se defender dele, por exemplo, o jiu jitsu oferece a técnica, o treino da execução e assim conduz a mulher a aptidão para a autodefesa e evitar uma possível agressão, inclusive de um homem, se necessário.

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Gracie Barra Freguesia do Ó: E para as mulheres que pensam em dividir a experiência no tatame com seus companheiros. Quais os benefícios da prática do Jiu-jitsu para o relacionamento dos casais quando treinam juntos?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: Você está com tempo? (Risos) Sente-se que la vem história… (risos).

treino feminino

Costumo dizer que “parceiros que lutam juntos, amadurecem junto!” Afinidade é a primeira palavra que me vem em mente… Porém, acredito que em um nível mais profundo, numa situação de luta entre parceiros, antes de se encontrar com o outro, você se encontra com você mesmo através do outro.

No Jiu-jitsu, como você não apenas aprende técnicas – você as executa e pratica com o outro durante o treino, no sparring – você de fato luta com a outra pessoa, porém, na verdade, sempre que lutamos com outra pessoa, antes de chegarmos a ela, estamos lutando contra instâncias em nós mesmos: nosso ego, nosso medo, nossa covardia, nossas fraquezas, nossas experiências de vida, experiência de relações e nossa coragem. Tudo isso está em voga quando aparentemente se luta contra “o outro”; estamos lutando contra tudo isso junto e mais ainda com o universo que traz em si, a outra pessoa também… e o encontro que nasce da disputa saudável de você consigo mesmo através de um parceiro, eleva o vínculo num grau além do explicável, inclusive pelo próprio grau de auto conhecimento que se é possível atingir nesta situação de luta (mas não para ganhar ou perder e, sim para evoluir, aprender…), como você mesmo já citou em uma pergunta anterior, traz um nível de maturidade e equilíbrio emocional que se torna muito favorável ao relacionamento…

E a parceria se intensifica justamente por esse caminho do autoconhecimento mútuo, um através do outro. Numa situação de “luta educativa” – vamos assim chamar os sparrings (rs) – durante o treino, você se encontra com diversas faces de si mesmo e do outro: limites, fraquezas, medos, ego e é aí que também se fazem presentes e se desenvolvem também as qualidades em como aprender a lidar com todos esses sentimentos que nem sempre são bons ou “dignos” socialmente falando…

Ambos os parceiros vêem-se despidos frágeis e tem uma frase que me encanta muito do Jung em que ele diz: “domine todas as técnicas, conheça todas as teorias, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” E é neste momento que os parceiros tem a oportunidade de tocarem-se despidos, sem máscaras, como simples almas humanas, cheias de falhas, defeitos e qualidades… onde o medo e as dificuldades do parceiro, muitas, quando não na maioria das vezes, são as mesmas que as suas. Entende agora o porquê eu disse sobre chegar a si mesmo através do outro?… Numa relação de parceria em que existe um vínculo de maior intimidade; seja casal, amigos muito próximos, pais e filhos, ou irmãos, isso se torna muito evidente e exposto para o par. E então ambos têm a possibilidade de desenvolverem juntos as forças, superações e habilidades.

Em qualquer ocasião de adversidades na vida e nos desafios que enfrentamos ao longo de nossa existência e relacionamentos, isso é possível e acontece em alguma dimensão… Mas quando você acrescenta o tatame na relação, é inexplicável a velocidade e transparência com que ocorre. E neste cenário, após um sparring você pode experimentar uma sensação indizível e imensurável de satisfação e paz, e as vezes insatisfação e vergonha também. E é aí que podemos nos melhorar…

As máscaras caem quando estamos lutando, mas quando se tem isso chamado “parceria” e maturidade emocional você se torna capaz de pegar os cacos e montar algo melhor, você joga fora as máscaras (que pesam tanto, porque precisam disfarçar algo) e transforma (ao invés de esconder) o que antes precisava disfarçar. Sua fraqueza fica exposta, você fica exposto perante aquele outro, mas se for um parceiro, tudo isso vira evolução.

Por isso nestes momentos, costumo dizer que amamos até o que temos de mais “feio” porque é através da aceitação dessa fraqueza, que podemos construir algo melhor. Da nossa ‘feiura’ e também da do outro, porque nos possibilita encontrar o que também temos de mais feio em nós e nos tornarmos melhores.

E geralmente será (quase sempre) o que mais odiarmos no outro, que precisaremos transformar em nós mesmos. Paradoxal e verdadeiro (risos).

Porém estes encontros e transformações, são mais fáceis quando a pessoa tem uma pré disposição ao auto questionamento e um maior amadurecimento emocional. Mas indiscutivelmente ocasionará algumas transformações no vínculo e uma maior proximidade, inclusive em termos mais práticos mesmo, no que se refere a afinidade esportiva, atividades de vida diária e uma rotina saudável em conjunto.

Gracie Barra Freguesia do Ó: Mas e quando não houver esse grau de maturidade por exemplo?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: Se for um casal ou dupla muito imatura, e além disso muito competitiva, é importante um bom mediador para auxiliar na compreensão das experiências caso esteja gerando algum tipo de desentendimento. Aí entra muitas vezes o papel do professor, que vai sempre muito além de ensinar apenas a temática do que quer que seja… Além de ensinar, ele também tem quase sempre o papel de mediador da aprendizagem e das experiências que cada um tem com o conteúdo que é aprendido. Terapia também ajuda nesse processo de amadurecimento.

Gracie Barra Freguesia do Ó: Muitas mulheres ainda não começaram a praticar Jiu-jitsu por medo de lesão ou mesmo por considerarem uma arte marcial violenta. O que recado você, como psicóloga e também praticante da arte suave, tem para essas mulheres?

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz: É um esporte que pode causar lesões, sim, porém outros também podem… Tudo depende muito da sua forma de praticar e da sua capacidade em respeitar seus limites e os do seu corpo, mas sem sucumbir a eles. Ninguém precisa começar a treinar jiu jitsu para virar lutador ou lutadora, você pode experimentar e acrescentar o jiu jitsu na sua vida com objetivos claros para uma autodefesa, por exemplo. Para melhorar a qualidade de vida, até mesmo para emagrecimento… porém não posso deixar de advertir: estas são conversas que nos contamos antes de começar, depois que iniciamos os treinos, o jiu jitsu vira um estilo de vida e um hobby com muito amor envolvido! Rs

E sobre ser um ‘esporte violento’, isso é mais uma Impressão do que uma realidade. É um esporte muito técnico, isso sim. E se formos pensar em violência, às quais estamos expostas ao risco diariamente estão aí… Saber se defender pode ser a diferença entre a tragédia e a salvação. Ah e claro, uma recomendação muito importante é escolher bem o lugar em que se irá treinar; escolha um lugar em que você se sinta respeitada e que tenha a ver com os seus valores pessoais e de vida. É um fator principal para a sua experiência e envolvimento com o esporte ser agradável e saudável.

Respeite sempre o seu medidor interno sobre em quais lugares e em quais companhias você se sente bem e respeitada e em que deve estar. Respeite-se em primeiro lugar, sempre.

Doutora Tatiane Gaipo Kuntz

Psicóloga Clínica

tatik3@hotmail.com

Publicado em 13 de agosto de 2019 por


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